terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ORAÇÃO - ALC


Oração (*)

José Angelo da Silva Campos





Somos todos convidados neste momento, a nos desvencilharmos das nossas armaduras e permitir que nossos pensamentos se voltem a uma reflexão, e que o mais íntimo da nossa alma encontre o diálogo perfeito com o Criador.

Tudo isso no mais puro Amor.

Afinal, “o amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho / Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo.” (1Cor 13,4,7)

E é a esse Amor Pleno que dirigimos nossos pedidos, agradecimentos e lamentos.

Da Carta de São Paulo aos Efésios:

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda bênção espiritual nos céus, em Cristo.

Nele, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor.

Conforme o desígnio benevolente de sua vontade, ele nos predestinou à adoção como filhos, por obra de Jesus Cristo, para o louvor de sua graça gloriosa, com que nos agraciou no seu bem-amado.” (Ef 1,3-6)

Pedimos na graça recebida que, como pessoas, possamos ser verdadeiras janelas abertas donde se possa nitidamente ver esse Amor.

Que essa janela seja regra em tudo; naquilo que falamos, no que escrevemos e como agimos.

Pedimos paz; pedimos fé, esperança e amor.

O Amor, que tudo crê, na fé, nos leva a agradecer.

Então a Ti, Amor Infinito, agradecemos o dom da vida, a alegria da esperança e o crescimento que a dor provoca em nossos corações.

Até aquilo que pedimos que nos livre (“não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.”) a Ti agradecemos, pois mesmo na tribulação sabemos que só a permitiste porque dali algo de melhor surgirá.

Afinal no centro de tudo está o Amor e assim manifesta o belo poema de Santa Teresa Dávila:



" Nada te turbe / nada te espante; / tudo passa. Deus não muda; / a paciência obtém tudo; / quem possui Deus / nada lhe falta / só Deus basta".



Que esta noite seja assim: Abençoada e generosa em alegria.

E que o Amor, como um vento a soprar o barco à vela da nossa imaginação, nos faça navegar no mar de prosas e versos que permeiam este solene encontro, deixando-nos em êxtase de paz e harmonia.

Amém!





(*) Lida no início da Sessão Solene de posse dos novos acadêmicos da Academia Literária Castelense (ALC) – 24/11/2017. FLIC – Festival Literário de Castelo – Castelo/ES.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

TEMPO


Tempo

José Angelo da Silva Campos





Hoje amanheceu chovendo.

Mas mesmo assim, estava quente e o relógio trabalhava.

A gente pensa.

Às vezes sonha, às vezes não.

O tempo passa.

Quando dormimos, ou estamos acordados; trabalhando; divertindo; chorando; brigando; rindo; falando; ouvindo; escutando....

.....O tempo passa.

Passa, passa, até quando?

Até quando vamos acompanhar o tempo passando?

O tempo não fala, não responde nem pergunta, apenas passa.

Se ficamos olhando o tempo.... passatempo.

Se não damos bola pra ele; sem percebermos, ele passa.

Loteado, o tempo é vendido ou comprado, num preço muito alto:

O tempo é caro.

Quanto tempo nos resta?

Onde comprar mais tempo?

Não há!

O tempo que temos não se abastece, não se repõe. Vem no pacote onde está a vida.

O volume do tempo que se tem é segredo. Ninguém sabe.

O que fazer com o tempo que não para de passar?

Com o tempo que não sabemos até onde vai?

Coisa misteriosa esse tal do tempo.

Tudo é medido nele, porém, ninguém sabe dele.

De que vale o nosso tempo?

O que levar dele, e pra onde?

O tempo foi feito pra gastar. Gastar da melhor forma possível......

Mas,...... qual é a melhor forma possível?

Quem economiza tempo, não ganha mais tempo.

Quem consome o tempo, não perde tempo.

O que fazer então?

Refletindo, o tempo passa.

Tempo não se gasta, não se compra, nem se vende......

O tempo não existe.

O que há, é a vida.

Enquanto existe, se chama tempo?

O que temos feito do tempo? Qual tem sido a prioridade dele?

Ops! O tempo não existe.......

Então é a vida?!

O que é a vida, senão a oportunidade? O tempo oportuno, sem medida, sem certeza, ......

A Vida também passa, passa junto com o tempo.

Como está a vida?

Donde vem? Pra onde vai? Como é que fica?

Tempo...

Vida...

Oportunidade........

Hoje amanheceu chovendo......

sábado, 29 de abril de 2017

PESSOAS BRILHANTES



Pessoas Brilhantes
José Angelo da Silva Campos

A natureza é autônoma e regida por uma Inteligência divina. Nela vemos o ciclo da vida repetir-se em forma e método, na imensidão do cosmos e no reduzido microcosmos.
Nesse turbilhão de energia que provoca e é provocada pelos ciclos existenciais de todas as formas, encontramos patente o estresse, que nada mais é que o tensionamento de uma matéria até o limite da sua resistência.
Esse tensionamento, enquanto não rompe, provoca dor. Daí, não estaríamos mentindo se disséssemos que a toda transformação na natureza existe dor.
Observemos um lindo brilhante encastoado num anel de ouro branco. Quantas cores, que transparência paradoxalmente unida a um tom opaco, que faz do seu brilho algo tão exclusivo ao ponto de tornar-se seu nome: “brilhante”.
Essa joia tão desejada, tem na sua composição química um paralelo com o carvão. É o carbono a composição de ambas. Mas as semelhanças param por aí. É a alta pressão, forte tensão, aplicada ao carbono que provoca a formação do diamante. Portanto, é a forte carga de estresse o grande diferencial em se obter da mesma matéria do carvão, um mineral da mais alta resistência, que submetido ao atrito com qualquer outra matéria conhecida, sai sempre vencedor, daí o título de pedra mais dura que há.
O diamante bruto, como o nome diz, é bruto demais para servir de adorno. Assim, ele é submetido a nova carga de estresse, sofre cortes e polimentos até que sua forma lapidada, unida ao ouro e à platina, o transforme na mais desejada peça ornamental, o brilhante, “a joia”.
A dor dói, mas produz brilho e excelência.
A vida é bela.
A vida humana é o que há de mais belo na natureza.
Da dor do parto nasce uma linda e reluzente criança, um verdadeiro diamante bruto: lindo, forte, mas carente de lapidação.
São os atritos do convívio com nossos semelhantes que permitem o aparar das arestas e o polimento da nossa tez, para que mais que a nossa luz própria, sejamos capazes de brilhar, refletindo a luz do amor e da amizade que recebemos uns dos outros.
No convívio diário, nas nossas concessões, nossas rejeições, nossas dificuldades e vitórias, cumprimos um ciclo comum a todos os elementos da natureza, com o diferencial de que carregamos conosco um brilho próprio, concedido pela graça, que, mais que iluminar o mundo, transmite na amizade essa contagiante energia do amor que faz de nós pessoas brilhantes.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

"NÃO EU, MAS TU"



“Não eu, mas Tu”
José Angelo da Silva Campos




“Pai, se é de Teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a Tua.” (Lc 22,42)


Da angustiosa dor no Getsêmani também podemos extrair o ensinamento para suportarmos as nossas angústias e profundas feridas da alma.

A natureza humana de Jesus sucumbe, num ato livre de obediência, à vontade divina. Numa demonstração clara da idealização do homem perfeito.

Acima dos desejos humanos, reside no coração cristão a obediência à vontade de Deus. “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu” (Oração do Pai Nosso).

Naquele sofrimento de Cristo no Getsêmani, está contida a nossa agonia daquela dor inexplicável, daquela angústia que fere a alma, por tudo que contradiz a nossa vontade e nos encaminha ao desespero da perda da fé.

É no monte das Oliveiras que encontraremos o refrigério daquela dor insuportável.

Nesse sentido, como fez Pascal, podemos aplicar também a nós, de modo muito pessoal, o sucedido no monte das Oliveiras: também o meu pecado estava presente naquele cálice pavoroso. “Aquelas gotas de sangue, derramei-as por ti”: são as palavras que Pascal ouve dirigidas a si pelo Senhor em agonia no monte das Oliveiras (cf. Pensées, VII 553).(*)
É comum entendermos que não há dor mais importante, ou maior, que a própria. 

Todos carregaram, no fundo da alma, uma angústia, um questionamento sobre algo que nos perturba, conduzido por uma sensação de exclusividade, de sermos alvo de um castigo, uma maldição.

Esse egocentrismo provocado pelo sofrimento, essa sensação de ser objeto de um castigo, provoca a pior reação que um ser humano pode ter em relação ao outro ou a si próprio, qual seja, a pena.

Essa sensação de pena, que enxerga o sofrimento mas não move o coração, induz à adequação do entorno à situação do sofredor, para que sentindo-se adaptado, saboreie um falso alívio do peso que carrega. 

É como se uma pessoa estivesse carregando um fardo de cem quilos e que todos à sua volta não carregassem fardo algum, e para aliviar o peso, fosse colocado um fardo de cem quilos sobre os ombros de cada uma das pessoas que estão no seu entorno. Assim, alívio de fato não iria ocorrer, apenas haveria uma sensação de que todos estariam no mesmo barco.
O alívio, porém, também não está em livrar-se do fardo, mas em buscar a força para livrá-lo de todo o seu peso.

Jesus disse: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." (Mt 11,28.30) 

Para que o fardo se torne leve, é necessário lançar a vida nos braços de Cristo. Despojar de tudo que nos reveste e clamar com sinceridade e fé: “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu.” Apresentar o fardo, que causa dor e angústia, ao Senhor que no monte das Oliveiras recebe junto à sua, a nossa humanidade e apresenta ao Pai a nossa fidelidade: “Não eu, mas Tu.”

A minha dor não é maior que a dEle, nem menor que a sua, mas a minha vida está contida nEle da mesma forma que a sua. E juntos formamos um só corpo, num único mistério que eleva nossa humanidade ao encontro do Pai, que nos concede a paz tão desejada.





(*) Extraído do Livro:
Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição/Joseph Ratzinger; tradução Bruno Bastos Lins. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2016

DEBATE. Quando faltam os argumentos...



Debate.
Quando faltam os argumentos...
José Angelo da Silva Campos

O Brasil parece aquele meninão pré-adolescente na fase de mudança da voz. Dá até para entender o que ele fala, mas, não passa despercebida a variação constante no som emitido, ora grosso, ora fino.
A comparação é tosca, considerando a seriedade da coisa. Por falar em coisa, a coisa pública está agonizante e, neste clima instável como a voz do meninão, provocando discussões sob a forma de “debate”, muitas vezes calorosos e, porque não dizer, carentes de fundamentação.
Os debatedores, na sua maioria, veem-se tomados pela paixão, que é uma adesão cega e surda, normalmente alimentada pelo orgulho, irmão gêmeo da vaidade, que não permite a livre ação do intelecto que, para bem funcionar, depende do oposto do orgulho e da vaidade que é a humildade.
Humildade para reconhecer, em primeiro lugar que ninguém é dono da verdade e, portanto, ter a capacidade de “dar o braço a torcer”, aceitar os argumentos alheios quando os fatos, aliados aos princípios republicanos e democráticos, lançam a tese defendida na seara da ausência de fundamento lógico.
Admitir que suas próprias argumentações perderam o embasamento que as sustentavam, não é motivo de vergonha, ao contrário, é sinal de sabedoria.
De fato, a defesa das teses implica no objetivo de convencimento da parte contrária. Porém, aquilo que se inicia no âmbito da intelectualidade não admite o uso da violência (seja física, seja intelectual) para silenciar o opositor, pois assim não haveria convencimento, apenas imposição violenta de posicionamento.
A crise de valores que assola a sociedade brasileira fere de morte a nossa dignidade pessoal, levando-nos à descrença nas instituições e na capacidade de reação inerente ao ser humano.
As ideias, pensamentos, ensinamentos históricos, a tradição moral e os princípios instituídos por séculos de evolução são substituídos por “ideologias” que conduzem o debatedor a agir e reagir sob o domínio das emoções. E o que é afinal “ideologia”?
A definição de ideologia requer um estudo filosófico da utilização do termo, suas primeiras aplicações e as mais marcantes no contexto da história da humanidade.
Arrisco-me a adotar uma definição que atende meus pensamentos pessoais, portanto longe de servir como plena verdade. A palavra ideologia teria nascido no final do século XVIII e início do século XIX, no contexto da revolução francesa, teve seu entendimento como conceito de “ideia falsa” ou “ilusão” por Napoleão Bonaparte, quando designou seus opositores de “ideólogos”, denotando um sentido negativo ao termo.
Com base neste sentido negativo, Karl Marx elaborou o sentido de ideologia conforme compreendemos hoje. Ou seja, a ideologia faz parte da superestrutura: a infraestrutura é econômica, a superestrutura é cultural, daí cria-se uma farsa de superestrutura para justificar os interesses de classe. Assim, a ideologia denota um conceito de falsidade, criatividade argumentativa para justificar os interesses econômicos daquele que a cria, ou a adota para si.
Opto por não adotar nenhuma ideologia, deixando minha mente livre para o convencimento nas argumentações fundamentadas e no exercício consciente do meu intelecto, mesmo que isso me leve a varias mudanças de entendimento. Costumo dizer sobre minhas ideias: “esse é o meu entendimento, convença-me do contrário.”
Daí a importância de evitarmos as paixões, para que elas não cerrem a porta da nossa capacidade de assimilação, esse bem fundamental que é a razão.
Brasileiros, não fujam do debate, porém, quando faltarem argumentos, sejam humildes, admitam o argumento do opositor ou, simplesmente silenciem, até que adquiram novos argumentos para reiniciarem o debate.
A violência emburrece.
Um bom e salutar debate a todos, para o bem da republica, da democracia e do nosso crescimento pessoal.